Eu só queria Anabelle por perto... Ela não sentia minha presença, ela nunca teria como saber das minhas tristezas, nada sobre as minhas intervenções.
Por que acreditamos que estamos fazendo intervenções ?
Ela não sabia a dificuldade que era de me aproximar, ela não entendia... Como ninguém entende mesmo quando o sentimento aperta só dentro de você e você não sabe como agir.
Anabelle tinha doces olhos...
E mesmo dizendo sobre suas insensíveis reações, seus olhos eram pura tristeza... Um copo vazio e verde esfumaçado. Seus pensamentos pareciam enfumaçados também quando você a perfurava pelos olhos. E ela parecia querer correr ao mesmo tempo em que você se convence de que já morreu há bastante tempo.
Infelizmente sua beleza não deixava fazer com que eu a abandonasse. Eu permanecia com ela, seguindo-a com os olhares, observando aonde os pequenos paços a levavam e não levavam a lugar algum.
Eu olhava triste por ela sem saber se alguma interferência minha serviria ou não. O intervalo acabava e eu tinha de deixá-la. E me sentia desconsolado... Eu estava tão apaixonado pelo seu cadáver que as lágrimas desciam sem que eu pudesse controlar.
Eu me esforçava pra tentar saber se era só a beleza que me prendia a ela. Eu estava absorto. Isso me comovia. Já não conseguia viver a vida normalmente. E mesmo assumindo que outrora antes dela eu já me sentia cabisbaixo, agora eu me prendia na tristeza dela. E a tentava decifrar. E ia colhendo sua angustia em cada olhar. E eu era grande observador naquela época.
Mas, se eu estive certo, ela nunca deixou que eu descobrisse... Sempre me senti frustrado. Sonhava em retirar o cadáver de seu lindo caixão de vidro e fazê-la rodopiar. Queria passar minha vida a ela. Queria que ela pudesse sugar o meu ar e assim fazê-la sentir um pouco a minha maneira. Queria dar-lhes tanto sonho pudesse sonhar. Daria-a tudo se ousasse pedir, se ousasse acordar.
No final da dança já me sentia cadavérico. Os tecidos colados a minha pele já tinha o seu perfume. Aos poucos fui percebendo que eu estava me embebedando dela, já tinha fumaça em mim, e nela, e ao redor.
Parei-me e passei apenas a assistir. Assisti a ela, e aos outros, aos passantes, aos rotineiros. E via morte em tudo... As vezes o sol me ofuscava e por pouco eu acreditava que alguém fugia a essa realidade de morte e insipidez.
Mas passava. Meus olhos não conseguiam enxergar nada.
Anabelle foi sem me ajudar. E com a doença que adquiri, não pude ajudá-la também.
Ela sumiu e provavelmente tomou algum rumo que só é longe daqui, mas que não é tão pior.